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O Cortiço de Aluísio Azevedo ( Resenha)

 


Aí está.

Mais uma prova literária de que a Literatura Brasileira vale muito a pena ser lida e apreciada por leitores exigentes e que gostam de uma boa história que os entretenham. Em O Cortiço, Azevedo Aluísio (1857-1913) narra em terceira pessoa, a história do ambicioso e avarento vendeiro, João Romão, um homem ambicioso que tenciona enriquecer, e para isso, usa a escrava Bertoleza, cujo marido, faleceu em um acidente de carroça, para os seus planos ambiciosos. Ele e Bertoleza se ajuntam como amantes, e começam a faturar na taverna. João Romão constrói um amontoado de quartos, no qual será o Cortiço, enriquece às custas dos pobres. Invejoso, e com os bolsos cheios de dinheiro, ele tenciona casar com Zulmirinha, filha de Miranda, seu vizinho do sobrado ao lado, que também sente inveja de João, e compra o título de barão. Tanto Miranda como João, um tem inveja do outro. 

A história gira em torno dos moradores do cortiço, cujas mazelas sociais o autor expõe com veemência o sofrimento desses pobres; Há traição, corrupção, homossexualismo, pobreza e morte, tudo isso ocorre com os inúmeros moradores que habitam o cortiço de João Romão. Porém, os principais personagens são: João Romão, Miranda e sua esposa infiel, dona Estela, o cavouqueiro português, Jerônimo que abandona a esposa Piedade para ficar com a mulata Rita Baiana, que o fisga com sua sensualidade, a mulher dele torna-se alcoólatra e a filha pequena vive sendo sustentada pelas meretrizes leonie e pombinha, esta última, casa com um rapaz e depois vira meretriz. 

Há inúmeros acontecimentos que desabam nos moradores do cortiços, que são os personagens secundários da trama, história essa, que acontece no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro do século XIX, e o autor nos mostra de forma bem clara e impiedosa, a vida cotidiana desse povo naquela época, que soa tão nítido nos dias atuais, as mesmas mazelas sociais que até hoje perduram em pleno século XXI. 
Aluísio Azevedo é fortemente influenciado pelo mestre Francês Émile Zola, e seu Naturalismo predominante em O Cortiço; Notei que há também forte influência da Literatura Européia em sua escrita, e um pouco da tragédia grega, na cena final em que Bertoleza rasga o próprio ventre com uma faca de escamar peixes, ao ser traída pelo João Romão, que a entregará aos antigos donos dela. 
Sanguinolento, real e a narrativa impiedosa de Aluísio, O Cortiço é a prova viva que a Literatura Brasileira estende-se até os dias de hoje, sendo brilhante e brutal.   

" João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.(...) 
Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afronta a resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lhe, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português  que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade. 
Bertoleza trabalhava forte; sua quintanda era a mais bem-afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria. 
Um dia, porém, o seu Homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado feito uma besta. 
João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofinações e dificuldades. " Seu senhor comia-lhe a pele do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr'ali, todos os meses, vinte mil -réis em dinheiro!" 
E segredou-lhe então o que tinha juntado para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que lhe entraram na Quintanda pelos fundos. 

Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula(...) 
E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceita a dele, cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém  precisava tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procurá-la, ia logo direto a João Romão. 
Quando deram fé estavam amigados." ( Página 7) 
  



Livro: O Cortiço

Autor: Aluísio Azevedo
  
Editora: Ciranda Cultural
 
 
Ano de lançamento: 1890 
 
Número de Páginas: 153 
Editora: Ciranda Cultural 


Avaliação: Excelente
Fotos: Martinha Luciana

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